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segunda-feira, junho 04, 2007

Os três tempos do espírito: O Tempo da Informática

O tempo da informática alterou por completo a nossa noção de tempo cronológico e de espaço. Segundo Lévy, a informática não reproduz a inscrição no território. Os conteúdos produzidos e transmitidos virtualmente estão em constante processo de transformação e adaptação.

Um género de produção just in time pode ser favorável a este tipo de comunicação que se vai produzindo à medida das necessidades e transformações sociais; aquilo que Lévy caracteriza como sendo um sistema flexível, de fluxo tenso, stock zero e tempo de espera zero.

Para Lévy, as novas TIC criaram condições para a entrada num novo ritmo temporal: o tempo pontual. O tempo pontual é para o autor "a velocidade pura sem horizonte e pluralidade de evoluções imediatas".

A forma como encaramos o tempo é desta forma condicionada pelo progresso técnico de cada sociedade, que provoca nesta alterações a todos os níveis (do económico, ao político e ao psico-social).

Ocorreu-me entretanto que esta visão de Lévy faz muito sentido se a compararmos com a forma como o tempo é percebido nas grandes metrópoles com o mesmo tempo vivido pelos grupos que vivem mais isolados e afastados dos grandes centros urbanos.

(Reflexão com base na leitura de Lévy, P. (1994) Tecnologias da Inteligência. Lisboa: Instituto Piaget

quinta-feira, maio 31, 2007

A Escrita Reestrutura a Mente

Nos tempos em que apenas a oralidade existia, a noção de espaço e de tempo era diferente. Contudo, o conhecimento e a história desses tempos chegou até nós mesmo assim. Como foi isso possível?

Acontece que, sendo poucos os recursos, o ser humano fazia um melhor uso daquilo que tinha, ou se quiserem, optimizava os recursos que tinha ao seu dispor, no caso, a memória auditiva. Como se mantiveram e chegaram até nós alguns pressupostos dessa memória cultural? Através de prosas e rimas - códigos narrativos dramatizados, emotivos, musicais e/ou acompanhados de rituais. (Lembram-se de como cantávamos a tabuada? Um vezes um uuuummmm, dois vezes dois, quuuuaaaatro)

O uso deste tipo de discurso (que mais tarde, mesmo sendo escrito manteve o seu traço oral) nada mais era do que uma estratégia para manter vivas as estórias que interessava passar para as futuras gerações.

Segundo Pierre Lévy (1990; pp 106) as representações com mais possibilidade de sobrevivência na memória humana são: 1) as representações que se relacionam fortemente entre si; 2) As representações que activam conexões de causa efeito; 3) As proposições que dizem respeito a domínios de conhecimento que são familiares aos membros das comunidades em que estão inseridos; 4) As representações que estão intimamente ligadas aos problemas da vida ou que sejam imbuídas de grande emoção.

Compreende-se agora a sobrevivência do Teorema de Pitágoras...

Certo velho de Siracusa
disse um dia para os seus netos
o quadrado da hipotenusa
é igual à soma dos quadrados dos catetos

Todas as representações e vivências que não integrassem estes critérios estavam desta forma condenadas a existir na Memória de Curto Prazo.

Ora, a escrita, alterou tudo. O registo escrito está mais próximo da Memória de Curto Prazo apesar das palavras sobreviverem para sempre. A nossa capacidade de memória ficou mais aliviada, se assim quiserem... "os longos encadeamentos de causa e efeito perdem uma parte dos privilégios de ligarem entre si as representações. As entradas em cena da acção, as apresentações dramáticas cedem parcialmente terrenos às disposições sistemáticas" (Lévy; 1990)

Em conclusão, a escrita e o registo escrito, são, sob este ponto de vista um super auxiliar de memória que estende indefinidamente a nossa memória de Curto Prazo...

Será por essas e por outras que o meu pai dizia que eu havia de ter 30 anos e não saberia a tabuada de cor e de trás para a frente? Infelizmente ele tinha razão...

terça-feira, maio 29, 2007

A Escrita é uma Tecnologia

A escrita é uma tecnologia!

O mais interessante nessa ideia é que a escrita não é apenas uma tecnologia como as outras. A escrita é a tecnologia! Como diz Ong "a mais drástica" das tecnologias, já que a impressão e a informática apenas vieram continuar o que a escrita há muito começou e para sempre alterou...

Reparem, quando começou a democratizar-se o acesso aos livros e quando a aprendizagem da escrita foi igualmente democratizada (no caso europeu, directamente dos conventos para as escolas) a sociedade também mudou profundamente... as relações sociais também se modificaram...

Ong responsabiliza a escrita pela profunda alteração da comunicação. A comunicação que antes era exclusivamente oral (ainda que com registos escritos, estes eram profundamente "orais"), dinâmica, profundamente ligada ao momento presente, envolvendo a presença física das pessoas; passa a fazer-se no discurso escrito implicando "um espaço mudo" e intemporal... A palavra escrita sobrevive ao momento em que foi dita, pensada, escrita!! A palavra escrita sobrevive ao seu autor, chega a sítios onde este poderá nunca ter sonhado ir. A palavra escrita pode ser verdade, pode ser mentira, mas ela continua lá, imortal... por isso é importante ter um cuidado especial com o que escrevemos.

Relativamente ao facto de a escrita ser uma tecnologia... pois, eu nunca tinha pensado nisso mas faz todo o sentido. Mesmo que não ensinem uma criança a falar ela há-de adoptar um código de comunicação oral qualquer... agora se nunca a ensinarem a escrever ou a ler, efectivamente isso não vai acontecer do nada como um processo natural e humano. E a escrita, bem como o domínio do código, estão de tal forma "integrados em nós", que reparem, quem sabe ler, sempre que olhar para uma palavra num outdoor ou em qualquer outro sítio por mais improvável ou inusitado que seja, acabará sempre por decifrar essa mensagem, quer queira quer não queira. Engraçado não é?

Reflexão com base na leitura de ONG, W. (1998), Oralidade e Cultura Escrita. Campinas: Papirus.